Leia na íntegra a carta que Ferraro entregou a Herzem antes de sua exoneração. “Hoje o sentimento é de frustração”


Por Tais Patez / 16 de agosto de 2017

André Ferraro

Antes de sua polêmica exoneração da Secretaria de Municipal de Comunicação, o publicitário André Ferraro  enviou ao prefeito Herzem Gusmão, uma carta de desabafo em relação ao clima interno na prefeitura. Na carta, André revela que seu trabalho estava sendo boicotado, “por gente que não reconheço competência para tal. Um tipo de gente que, creia, pode afundar com seu governo”, diz na carta. André ressalta ainda, sem citar nomes, que se sente esgotado pela falta de “poder de decisão”,  e por ter que se submeter “à influência de pessoas enganadoras, mas empoderadas em seu governo”. Confira o desabafo na íntegra:
Mensagem enviada na sexta às 15:30 para o prefeito e na terça-feira (16) para o Blog do Rodrigo Ferraz
Prefeito Herzem,
 
Fiquei nesses últimos dias refletindo algumas coisas e comentários, e ontem aproveitei pra fazer outras reflexões, que prefiro compartilhar com você de forma clara.
 
Estou empurrando há meses uma crônica falta de condições de trabalho, sofrendo um enorme desgaste pessoal, e agora uma injusta  desconfiança profissional como nunca tive em minha vida.
 
Processos intermináveis sem solução, sabe-se lá por qual intenção. Muita gente desqualificada dando opinião, e eu, que milito há 30 anos na comunicação pública sem ser ouvido ou credibilizado sobre um assunto que domino. Não tenho dúvidas da legalidade desse processo de dispensa e por isso insisti que fosse feito, inclusive abalizado pela própria PJ na última reunião com Damares e Átila.
 
Não era isso que esperava quando vim para Conquista, quando me desliguei da Agência e mudei de cidade, confiando no homem Herzem Gusmão.
 
Sempre fui, graças à bondade dos amigos, um profissional respeitado e reconhecido por onde passei, mas infelizmente as condições aqui não estão permitindo fazer o trabalho que pretendo.
 
De forma rasteira e dissimulada, venho tendo meus processos e solicitações sempre cheias de restrições, em desconfiança absoluta, por gente que não reconheço competência para tal. Um tipo de gente que, creia, pode afundar com seu governo.
 
Demorei demais pra reagir. Fiquei relevando a situação, acreditando em uma virada, na continuidade das ideias, na sua boa fé e intenção, e me expondo publicamente como nunca. Mas sem conseguir o fundamental: implantar o trabalho que acredito e planejei, e ajudar com soluções inovadoras para os problemas da cidade.
 
Mas não está dando mais pra me calar. A Secom é a secretaria que menos gasta em toda prefeitura, pode ter certeza. Não temos pessoal suficiente, não temos orçamento e contratos. Ainda bem que encontrei uma pessoa eficiente como Lú Macario pra ajudar a segurar no peito e na raça as pontas, senão o quadro de desgaste seria ainda pior.
 
Fico amarrado, sem profissionalizar as relações, sem condições de melhorar internet e redes sociais com quem realmente entende de internet e redes sociais, sem condições de fazer propaganda com quem realmente entende de propaganda. Coisas perfeitamente possíveis e fundamentais para uma cidade com a importância e dimensão política como Vitória da Conquista, bastaria priorizar.
 
Mas a máquina trabalha para o contrário, excessivamente temerosa, com secretários sem poder de decisão, totalmente centralizada e travada. Isso pode servir pra cidades pequenas, mas é pouco, muito pouco para uma cidade como essa.
 
Sinceramente, pra mim hoje está claro que trabalho com um boicote que me impede de agir, possivelmente à espera do meu esgotamento, ou o fim da minha capacidade de conciliação e paciência, talvez engendrado por quem quer me ver fora. Fico desviando de tiros inimigos, mas principalmente do tiroteio amigo. Creio que eles venceram.
 
Percebi e resisti a tudo isso até agora por compromisso e gratidão. Continuo a dizer que estou e continuo em Conquista por amor, estimulado e com energia positiva, ofertando minha experiência, para contribuir e ajudar no aperfeiçoamento da propaganda e modernização da comunicação local. Mas nada disso aconteceu, e hoje o sentimento é de frustração diante do improviso imposto, com o qual não estou habituado.
 
Quero deixar claro que não vim pra Conquista por dinheiro, nem com expectativas irreais, muito pelo contrário. Estou gastando mais do que recebo sem reclamar e recebendo menos do que ganhava. Loquei carro, paguei diárias de hotel, aluguei e mobiliei apartamento, e mantenho duas casas. Não uso a prefeitura pra pagar minhas idas semanais a Salvador, nem tampouco recebo diárias quando não há trabalho. Tudo acreditando em um projeto de vida e em uma pessoa, e investindo neles e no futuro que sempre é ofertado a quem tem fé, a quem age com o coração.
 
Infelizmente, para minha tristeza, confesso que hoje estou no limite do esgotamento, atingido pela falta de poder de decisão, pela falta de confiança, que impedem meu trabalho. Sem condições práticas de dar a resposta com meu trabalho, que fica entalada na garganta, por ter que me submeter à influência de pessoas enganadoras, mas empoderadas em seu governo.
 
Mas tem uma coisa importante e imprescindível que preciso salientar: sou uma pessoa que aprendi com meu pai o valor da correção. Nunca tive nenhuma macula na vida pública, trabalhando sempre com políticos, com os quais tive absoluta fidelidade e clareza, seja em momentos de baixa ou alta, mas mantendo minha honra e dignidade.
 
Faço questão de manter minha postura em Conquista da mesma forma que sempre fui, sem abrir mão da sinceridade, sem agir escamoteando interesses pessoais e  comerciais, sem levar ao prefeito, explorando sua boa fé, soluções estapafúrdias para problemas simples, revestidas de uma falsa tecnicidade, mas embutidas de outras intenções, de interesses escusos, como vejo acontecer. E que esse alerta de quem tem experiência no setor público sirva pelo menos como aviso.
 
E mesmo assim, talvez por essa independência, por não ser bajulador, não consigo fazer as coisas andarem. Muito pelo contrário, fico sabendo através de coordenadores que o processo de dispensa da agência, combinado, foi cancelado. E isso me fragiliza como nunca.
 
Como te disse, me sinto um carro largado na garagem sem combustível, sem importância, e ainda tendo que ouvir reclamações e opiniões nas esquinas da fofoca, dizendo que o carro não presta porque não anda, quando falta apenas abastecer.
 
Confesso que diante desse quadro não sei mais o que fazer e como posso contribuir eficientemente para o sucesso da sua gestão. O desestímulo nunca fez parte do meu universo nesses 50 anos de vida e 30 de profissão.
 
Já vivi muita coisa pra me credenciar a não aceitar certas distorções de pesos e medidas. Para não admitir que a letra fria da lei sub-interpretada valha apenas para as minhas demandas, e a permissividade reine para outros interesses.
 
Assim, e diante disso tudo, dos compromissos diversos permanentemente assumidos com pessoas, blogs, veículos e agências, constantemente adiados e cancelados, sem nenhuma consideração com a palavra desse secretario, e pior, sem uma priorização da comunicação que possa projetar condições de trabalho futuras, busco uma solução definitiva junto ao prefeito, para evitar ouvir o que tenho ouvido, para evitar que o maldizer triunfe, para evitar mais desgaste ainda.
 
Espero verdadeiramente que essa manifestação sincera não venha prejudicar-me mais do que já me prejudiquei financeira e profissionalmente com a decisão de vir pra Conquista, e que possamos encontrar uma solução que não gere conflitos e inimizades.
 
Graças a Deus vim pra cá com as melhores intenções. Por admirar e acreditar em um político possível de ser diferente. Meu desafio maior sempre foi colaborar para a construção de uma cidade mais moderna, coroando minha trajetória profissional.
 
O somatório de tudo isso me fez ausentar dos compromissos como secretario, tanto na câmara quanto nas reuniões com ACM Neto. Por pura falta de condições físicas e psicológicas.
 
Não nego que espero a retribuição da correção com a qual pautei nossa relação, nessa busca de uma solução final para o problema, seja ela qual for. E coloco em suas mãos a decisão, contando com seu respeito e sinceridade.
 
Abraços.
 
Andre Ferraro
11/08/2017